A LITERATURA NO PROJETO JORNALÍSTICO DE OS SERTÕES

 

Vivianne Milward de Azevedo - UFRJ 

 

(....)- Quem é esse defunto

que descansa em plena guerra?(....)

Que homem é esse de paz

que sabe que guerra é guerra? (CACASO: 2000)

 

(....) Escrever somente começa quando escrever é abordar aquele ponto em que nada se revela, em que, no seio da dissimulação, falar ainda não é mais do que a sua imagem, linguagem imaginária e linguagem do imaginário, aquela que ninguém fala, murmúrio do incessante e do interminável a que é preciso impor silêncio, se se quiser, enfim, que se faça ouvir. (BLANCHOT: 1987, 42)

 

Há uma tradição.

Cujo sentido é preciso compreender.

Cujo sentido é preciso manter. (SAINTE-BEUVE: 1874)

 

Tenho medo de escrever. É tão perigoso. (....) Perigo de mexer no que está oculto (....) Para escrever tenho que me colocar no vazio. Neste vazio é que existo intuitivamente. (LISPECTOR: 1978)

 

O projeto inicial de Euclides da Cunha, a nosso ver, era o de construir um texto jornalístico, capaz de superar a distância geográfica entre o litoral e o sertão baiano; o que realizou com a habilidade permitida por sua condição de jornalista de O Estado de São Paulo. Transformando seus relatos jornalísticos no livro Os Sertões, Euclides enveredou por um caminho bem diferente. Talvez a própria necessidade de compreender o evento Canudos o tenha levado à construção dessa obra. O que ele provavelmente não sabia é que sua construção textual se transformaria numa busca pela arte, na qual a escrita é, ao mesmo, tempo exercício de escuta e fala, tornando-se compreensível para o autor/leitor, numa procura incessante de respostas advindas de sua experiência no sertão baiano. O autor profere a obra, ao mesmo tempo em que a põe num limite, delimitando-a num espaço mais livre do que o do texto jornalístico, caracterizado por uma finalização visível e premeditada. Já a obra, por sua vez, será um objeto utópico, e sua não realização ao invés de afastar, atrairá cada vez mais o autor, que a quer concluída, sem perceber que isso lhe foge à vontade. Assim, ao transformar as notas jornalísticas em livro, Euclides avança num território novo, um espaço a se revelar, o espaço literário.(BLANCHOT: 1987) Evidenciamos que ao enveredar nesse novo território, continuará recorrendo às suas habilidades de relator jornalístico, mas utilizará mecanismos ficcionais da escrita literária.

Lendo e relendo o texto de Os Sertões, deparamo-nos com a excelência de uma bem montada peça teatral. Isso mesmo! Euclides constrói, cuidadosamente, uma peça teatral, na qual vivenciamos três momentos distintos: a preparação do cenário, a apresentação dos personagens e, finalizando, a ação em si. A teatralização do conflito apresenta personagens fantásticos, no limite entre o real e o irreal, expondo a face oculta da tragédia. Desse modo, Euclides se torna, para nós, o observador de um espetáculo, revelando através da linguagem algo entre o sentido e o indizível, que se mostra através do teatro em movimento com suas cenas, atos, drama e tragédia.

O cenário nos é apresentado em A Terra, familiarizando-nos com a aridez da paisagem, como se esse conhecimento antecipado nos explicasse algo que está por vir. Prepara-nos o espírito, capacitando-nos compreender e, de certa forma, sentir de modo tátil, os efeitos do imenso silêncio sertanejo. A terra se mostra agressiva e agredida, como se o drama começasse na paisagem e de modo cíclico terminasse nela. Não percebemos mais a presença do conhecedor da geologia, mas um locutor que se impressiona com o martírio da terra estorricada:

 

(....) dispondo-se em cenários em que ressalta, predominantemente, o aspecto atormentado das paisagens. (....) a impressão dolorosa que nos domina ao atravessarmos aquele ignoto trecho do sertão - quase um deserto(....) (CUNHA: 1998, 27 e 31)

 

A cena que surpreende é descrita de forma viva. Não há matéria inanimada, o escritor oculta o geólogo, deixando vir à tona o poeta, dando mobilidade ao descrito, transformando em vida o que poderia ser morte. Monta-se, assim, um jogo para os espectadores. Ninguém consegue passar pela Terra de maneira inócua, há de se carregar um pouco do tormento deste cenário, que se apresenta personagem. Dependerá, também, dele o desenrolar dos fatos. A vítima dos “climas excessivos” parece estar num estado de espera, como a se “preparar para a vida”. As forças vivas da natureza carregam um ritmo de surpresas, criando uma poética dos objetos descritos, em que os elementos estáticos dramatizam, fazendo de cada descoberta uma cena teatral. O sertão nos surpreende a cada instante, como um mar tormentoso, do qual não há como escapar das turbulentas ondas de expectativas. A seca, o calor, o frio noturno, ou mesmo a ressurreição da terra são expostos como uma sucessão de inesperados desenlaces teatrais.

Na segunda parte desta peça teatral, presencia-se um narrador confuso diante das teorias da evolução humana, em voga na época; talvez por isso Euclides se deixe levar pela descrição e pela narrativa literária ficando, segundo Zilly (1993), liberado da “coerência científica”:

 

Sabe-se que o historiador e pensador social Euclides da Cunha se envolveu em numerosas contradições no que se refere ao destino das raças na sua contribuição para a construção da nação brasileira. Várias vezes abandona o raciocínio sociológico e antropológico que, de acordo como pensamento homogêneo da Europa no século passado, era racista.(....) O escritor ficcional abre mão do autocontrole ideológico e cria um espaço para a observação e imaginação sem mediação teórica e sem preconceitos. (ZILLY: 1993, 46)

 

 

O narrador não fica insensível à cena que descreve, envolto pela emoção estética (CANDIDO: 1981) não consegue descrever de modo realista a paisagem que observa, seu relato se apresenta pleno de sonoridade poética. Essa poeticidade, presenciada na obra, nos obriga a fugir de uma leitura sentimental, pois precisamos buscar o distanciamento necessário para não nos envolvermos nesse teatro:

 

 

À luz crua dos dias sertanejos aqueles cerros aspérrimos rebrilham, estonteadoramente - ofuscantes, num irradiar ardentíssimo... (....)E por mais inexperto que seja o observador (....)  tem a impressão persistente de calcar o fundo recém-sublevado de um mar extinto(....) (CUNHA: 1997, 27-28)

 

 

A descrição da paisagem do sertão traz algo entre o assustador e o sublime, em que a apresentação da flora sertaneja mostra a luta da natureza pela manutenção da vida. O narrador nos informa sobre a vegetação como se estivesse pintando uma tela, onde o verde e o vermelho do deselegante e monstruoso cabeça-de-frade (p.54) dão um exemplo do paradoxo vida e morte no sertão. A chegada das chuvas surpreende o visitante, este, “pasmado, não vê mais o deserto” (p.55), a “flora tropical” (p.57) ressurge numa “apoteose” (p.56). E o sertão vira um “paraíso” (p.58) até que os benefícios das chuvas desapareçam num imperceptível  “ritmo maldito” (p.59), desenhando, novamente, a dura paisagem árida do sertão. Ao compreender essa constante contradição climática, o narrador percebe a luta e a vitória de algumas espécies vegetais que conseguem se sobrepor às diversidades climáticas: “E vivem. Vivem é o termo - porque há, no fato, um traço superior à passividade da evolução vegetativa...” (p.53). Em virtude disso, o martírio do homem sertanejo, com toda a sua dura beleza, é descrito de maneira poética, soando-nos como música. O narrador não pode esconder os efeitos emotivos que a visão da luta do homem do sertão pela sobrevivência lhe causa. Não é possível realizar uma leitura superficial da torturante vida sertaneja, o leitor, por mais frio e distante que se apresente, o leitor será sensibilizado pelo ritmo sonoro desta aparição. São imagens fortes, visual, sonora e emotivamente: “O martírio do homem, ali, é o reflexo de tortura maior, mais ampla, abrangendo a economia geral da vida. Nasce do martírio da terra...”(p.73).

A sensibilidade do narrador-observador é evidenciada quando ele se depara com a morte humana, até então só pressentida pela agressividade da paisagem, pela supremacia do sol escaldante. A fragilidade da vida humana se mostra frente a frente ao narrador, que consegue transformá-la num relato rico e emocionante: o que poderia ser exposto com horror se transforma numa descrição poética. Talvez essa passagem de Os Sertões seja um dos melhores exemplos das maravilhosas construções ficcionais utilizadas por Euclides da Cunha. A descrição inicia-se com a suposta presença de um soldado descansando à sombra de uma “quixabeira”. Descobrimos a colocação, intencional, de uma pausa, recorrendo ao uso de reticências após a palavra “descansava”; esse procedimento vai criar, segundo  Antoine Seel, um “silêncio literário”, representando uma abertura que leva o leitor a confrontar-se com a falta de limites, com a exposição da imaginação. O texto se mostra como um poema-pintura. Esta pausa, na qual o tempo faz sentir seu peso e beleza, nos prepara para a quebra da expectativa gerada, pois a seguir seremos surpreendidos com a figura de um soldado morto há três meses. Preparamo-nos, então, para os horrores da decomposição de um cadáver, entretanto nos deliciamos com pura poesia.  Observemos o trecho mencionado:

 

O sol poente desatava, longa, a sua sombra pelo chão e protegido por ela - braços largamente abertos, face volvida para os céus - um soldado descansava.

Descansava... havia três meses.

(....)

Morrera no assalto de 18 de julho.

(....)

O destino que o removera do lar desprotegido fizera-lhe afinal uma concessão: livrara-o da promiscuidade lúgubre de um fosso repugnante; (....)(CUNHA: 1997, 40-41)

                               

Em face da riqueza descritiva desta cena, não presenciamos mais a habitual utilização de recursos ficcionais do jornalista Euclides da Cunha. Visualizamos um literato, lançando mão de construções ficcionais, mantendo um projeto estético em sua obra.  A seqüência do trecho visto acima, evidencia nossa constatação:

 

E estava intacto. Murchara apenas. Mumificara conservando os traços fisionômicos, de modo a incutir a ilusão exata de um lutador cansado, retemperando-se em tranqüilo sono, à sombra daquela árvore benfazeja. Nem um verme - o mais vulgar doas trágicos analistas da matéria - lhe maculara os tecidos. Volvia ao turbilhão da vida sem decomposição repugnante, numa exaustão imperceptível. Era um aparelho revelando-se de modo absoluto, mas sugestivo, a secura extrema dos ares. (CUNHA: 1997, 41)

 

Como já afirmamos anteriormente, nas descrições não há elementos inanimados, em tudo há a ocorrência da vida. O narrador consegue perceber a pulsação da vida, mesmo perante um corpo inerte, apresentando a fusão da surpresa com a ruptura da surpresa. O soldado está morto, mas o observador vê vida à sua volta. De vítima, o nosso personagem passa a premiado pelo destino, que lhe poupa do enterro numa rasa cova aglomerada de corpos, premiando-o com a possibilidade de se tornar, também, um espectador da beleza natural do cenário descrito. A riqueza estilística das lacunas de silêncio, das rupturas de expectativas e das pausas, geradoras de surpresas, “conferem uma dimensão cósmica ao texto”. ( SELL:1997) A escrita é confrontada com sua própria impossibilidade, não podendo mais descrever ou narrar, mas simplesmente sugerir: “Há três meses - braços largamente abertos, rosto voltado para os céus, para os sóis ardentes, para os luares claros, para as estrelas fulgurantes (...)”. ( p. 41)

O narrador nos leva à vertigem diante do infinito e do sentimento indizível perante a presença concreta e não compreendida da morte. Há uma percepção do sagrado, como se o olhar do soldado morto nos revelasse bem mais do que somos capazes de entender. Talvez, por estar atormentado pela imagem da morte, o narrador a apresente de modo tão fascinante, mas que ao mesmo tempo se mostra repugnante perante a incapacidade humana de vencê-la. O narrador se mostra um espectador desse teatro móvel. Assim, como espectador, assistirá às cenas e atos dessa peça viva, utilizando as palavras cenas, atos, drama, tragédia, ao pé da letra, para descrever e narrar a dramatização, da qual participa como espectador e ator. E ao percebermos o confronto entre o  observador e o encenador, descobrimos alguém que se emociona e denuncia. Em decorrência dessa dupla existência surge um texto que “vibra com a paixão do espectador e do ator”(SELL: 1997).

Dessa forma, concluímos a primeira parte de nossa leitura, considerando Euclides da Cunha o poeta do conflito. Seja o conflito do pensador, do homem da ciência, do observador, do teatrólogo, ou do ator, mas, principalmente, o conflito do escritor no momento da construção da obra, resultando esta numa rica construção literária, na qual a linguagem transforma as descrições e narrações em cenas, como se das páginas do livro brotassem quadros com cores fortes. Pena que para muitos a leitura de Os Sertões seja encarada como uma longa e cansativa empreitada, ao invés de ser tratado como uma viagem, na qual pode-se fazer descobertas incríveis, acompanhada por poesia, música e encenação.

 

 

Referências Bibliográficas:

 

BLANCHOT, Maurice. O espaço literário. Rio de Janeiro: Rocco, 1987.

CACASO. Velório do Conselheiro (Bumba-meu-santo). Inimigo Rumor, Rio de Janeiro:7 Letras, nº 8, p. 05-19, maio, 2000.

CANDIDO, Antônio. Formação da Literatura Brasileira. 6. ed. Belo Horizonte: Itatiaia, 1981, 2v.

CUNHA, Euclides da. Os Sertões. Campanha de Canudos. Edição crítica de Walnice Galvão. São Paulo: Ática, 1998

_____. Os Sertões. Campanha de Canudos. 38ª ed. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1997.

LISPECTOR, Clarice. Um sopro de vida. São Paulo: Círculo do Livro, 1978.

SAINTE-BEUVE. Qu’est-ce qu’un classique? (1850). Causeries du lundi. Paris: Garnier, 1874-1876. T. XV. 15v.

SELL, Antoine. “Reflexos da literatura francesa em Os Sertões”. Trad. SILVA, Manoel Roberto Fernandes da. Gazeta do Rio Pardo. Suplemento Euclidiano. 09 de ag. De 1997. p. 02.

ZILLY, Berthold.  “A Guerra de Canudos e o imaginário da sociedade sertaneja em Os Sertões, de Euclides da Cunha. Da Crônica à ficção”. In: CHIAPPINI, Ligia & AGUIAR, Flávio Wolf de, Literatura e História na América Latina. Seminário Internacional, 9 a 13 de setembro de 1991. São Paulo: USP, 1993. Cap. 2. . 37-47.

_____. “A reinvenção do Brasil a partir dos sertões. Como Canudos é a quintessência do sertão, e o sertão a quintessência do país, o livro de Euclides da Cunha “é” o país, ele reinventa o Brasil, contribuindo para a idéia que a nação tem de si mesma”. Humboldt, nº 80, ano: 2000. p. 44-51.